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Microempresas nordestinas apostam no crescimento sustentável

08 mar - Por Francílio Dourado Filho - Sem categoria

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Fonte: invest NE
Por Izakeline Ribeiro

De origem humilde, em uma família na qual a mãe viúva precisava criar oito filho s. Entre eles, Vicente Rios, 52 anos, um empreendedor e, acima de tudo, sonhador, o microempresário cearense é um exemplo de empreededorismo. Desde o início das atividades da Água Mineral Límpida, em 2002, Vcoicente investe em ações de preservação ambiental e de bem estar social dos funcionários e da comunidade.Vicente Rios comemora os prêmios recebidos. FOTO: Izaqueline Rios

Vicente faz parte das cerca de 15 milhões de micro e pequenas empresas responsáveis por 28 milhões de empregos e por 99% dos negócios nacionais. O setor que mais movimenta economia brasileira, as empresas desta categoria começam a atentar para as questões que envolvem sustentabilidade social e ambiental.

Ao descobrir a fonte de água mineral em seu sítio, localizado em Aquiraz – Região Metropolitana de Fortaleza, Vicente idealizou o segundo e atual empreendimento de sua vida. Antes proprietário de uma padaria, o empreendedor viu na mineradora de águas um negócio e tanto. “Procurei financiamentos. Eu precisava inicialmente de R$ 100 mil. Mas, não consegui e comecei a vender tudo que eu tinha para ver este sonho realizado. Coloquei cada tijolo, fui até servente de pedreiro da minha própria obra”, conta. Até que em quatro anos de trabalho e sem qualquer patrimônio, pois já tinha vendo até a própria casa e muitas dívidas, conseguiu um financiamento do Banco Nacional do Desenvolvimento (Bndes) e pôde concluir a estrutura necessária para dar início aos trabalhos.

“O primeiro saldo que tive foi só para pagar as contas. No segundo ano, já estava mais folgado e pude começar a respirar mais aliviado, trabalhando pelo crescimento da empresa”, conta Vicente, que desde o início das atividades da mineradora segue um manual de boas práticas de fabricação, elaborado pela própria empresa.

_MG_4710Reciclagem de lixo, de sobras de matérias utilizados, como os plásticos das tampas, lacres e rótulos, uma caixa de concreto para armazenar resíduos orgânicos sem que eles tenha contato com o solo, sistema de poupa luz – que economiza até 25% de energia -, equipamentos de ozônio para a limpeza dos garrafões, o que diminui em até 50% o uso de produtos químicos. Estas são algumas das ações realizadas na fábrica da Água Mineral Límpida. “Eu vendo natureza. Como eu não vou cuidar dela? E mais do que isso, nós precisamos cuidar do planeta agora porque poderá não sobrar a menor qualidade de vida para nossos netos”, diz Vicente.

“Nós também respeitamos a fiscalização, temos compromisso com a transparência e investimos na capacitação dos nossos funcionários. Nós geramos 200 empregos diretos. Esse é melhor retorno que poderíamos dar ao Governo, que financiou o nosso trabalho”, afirma o empresário cearense.

O gerente do Núcleo de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), Renato Aragão, destaca que as vantagens para as empresas que adotam esse tipo de postura são muitas e em diversos aspectos. “Vai desde o não pagamento de multas, em razão do cumprimento da legislação ambiental vigente, à economia de matéria prima e consequentemente o aumento do lucro pela implementação da produção mais limpa, ao marketing verde, que atualmente destaca as empresas empenhadas ambientalmente. Essa última, por exemplo, em alguns casos já é uma exigência do mercado. E, também, o público, hoje é mais consciente, que passa a exigir tal postura das empresas”, diz.

O sucesso de uma empresa que aposta em gestão sustentável é inevitável. Vicente, por exemplo, já recebeu diversos prêmios do Serviço Brasileiro de Apoio as Micro e Pequenas empresas (Sebrae), da Confederação Nacional dasDSC08566 Indústrias (CNI), da Fiec, do Serviço Social da Indústria (Sesi), entre outros. Todos nas categorias de êxito em gestão social e ambiental, já que a Límpida também cuida do bem estar social dos funcionários e da comunidade próxima da fábrica.

“Nós oferecemos capacitação para os nossos colaboradores. Eu acredito que grandes funcionários é que fazem uma grande empresa. Por isso, tratamos a todos com dignidade e respeito. Além disso, também oferecemos escolinha de música para as crianças da comunidade, espaço de socialização e lazer. Campo de futebol, unidade móvel de dentista para funcionários e comunidade. E ainda mantemos as estradas que dão acesso à fábrica”, conta Vicente.

Acreditando nas pessoas
Quem também se preocupa com o bem estar social é a empresária Rose Guareschi. Proprietária da rede de alimentos Julietto em Pernambuco, ela foi inspirada pela história de Pinóquio, o boneco de madeira que ganha vida graças à perseverança do velho Gepeto, para implantar um sistema de capacitação e contratação de jovens em situação de risco social.

“A pequena empresa tem a cara do dono. E faz parte das coisas importantes para mim, a inclusão social. Eu acredito nas pessoas. Acredito na força dos jovens. E, principalmente acredito na força de mudança que o trabalho tem. Por isso implantei desde a fundação da Julietto estes conceitos: empregar, capacitar e transformar a vida dos colaboradores, sendo sempre rentável”, comenta.

De acordo com Rose, financeiramente a empresa que trabalha com a inclusão social tem despesas, gastos e investimento muito maior na área de Recursos Humanos, porém o resultado da satisfação pessoal, da família toda e de todos os envolvido é imensurável. “A empresa precisa investir em treinamentos operacionais, com muito mais frequência. Os treinamentos motivacionais, incluindo a implantação de sonhos e objetivos precisam ocorrer rotineiramente. É comum também ter que viabilizar cursos de leitura e escrita”, explica.

Também premiada por suas atividades de responsabilidade social, a empresária acredita na inclusão assim como acredita que o sol vai nascer amanhã. “Receber prêmios é gratificante e necessário para que eu faça mais empresas e mais pessoas sonharem comigo e assim fazer com que mais empresários sonhando juntos, mais jovens comecem a sonhar em viver mais, morrer de velhice e não sonharem em viver até aos 25 anos e morrerem pelo uso de drogas ou mortos nos bairros. Quando expomos o que fazemos, temos o objetivo de somar forças e não de exibicionismo”, afirma.

Segundo o Anuário das Micro e Pequenas Empresas do Sebrae (2008), em 2006 o Nordeste contava com 321.858 micro e pequenas empresas. O que estas empresas poderiam fazer para melhorar a realidade social e estão de braços cruzados? Para Rose, o maior resultado de investir numa gestão social é a satisfação pessoal, da sua família e de todos da equipe. “Uma equipe que consegue fazer o bem para outras pessoas, é muito interessante como os jovens gostam e se sentem motivados a ajudar outros jovens. Eles falam a mesma linguagem conseguem convencer aos que chegam que a mudança vale a pena e conseguem também enxergar com facilidade aqueles que não tem vontade de mudar. É muito gratificante”.

Com cerca de 193 funcionários distribuídos em 10 unidades, entre as opções de culinárias oferecidas, a empresária conta com um quadro de funcionários, do qual 96% é composto de jovens vindos de projetos sociais em busca do primeiro emprego. “A inclusão social é fundamental para existência das sociedades, se empresários e pessoas que podem não fizerem tudo para incluírem os jovens não teremos mais sossego. As ruas estarão cada vez mais cheias de pedifabio2ntes, pessoas doentes, violência e todos nós seremos tomados pelo medo a insegurança e a insatisfação pelas diferenças sociais”, ressalta.

Natanael Júnior, 19 anos, e Fábio de Almeida, 20 anos já estão fora das estatísticas de violência. Natanael trabalha na unidade central da Julietto há seis meses. Começou como auxiliar de copa e depois de cursos de capacitação promovidos pela Julietto, hoje é auxiliar de cozinha. “Antes do curso eu não fazia nada, só vivia no meio do mundo, jogando bola”, conta.

Com o salário ganho no primeiro emprego, Natanael ajuda a família e faz planos para o futuro. “Moro com meu irmão e ajudo a ele em casa. Para o futuro, penso em reformar a casa e comprar uma moto, com salário dá para planejar. Também quero ter minha casa, dar uma vida melhor para minha família, penso em fazer um curso. Estou entre um curso técnico de soldador e gastronomia, para continuar no ramo de restaurantes, vou fazer de tudo para chegar a ser chef de cozinha”, afirmaNatanael.

Já aque está concluindo o ensino médio pretende fazer faculdade de Direito ou Administração. “Quero ter um trabalho que me dê reconhecimento. Quero crescer cada vez mais e dar uma vida melhor para minha mãe”, conta ele que trabalha há um ano e sete meses na Julietto, como auxiliar de cozinha. Ele ressalta o quanto a educação pode melhorar a vida de jovens carentes. “A gente não tinha muitas chances, podíamos fazer coisas erradas, mas vimos que o caminho não era aquele”, completa o auxiliar de cozinha.

Investimento com retorno certo

O professor e consultor de empresas e organizações sociais, Francilio Dourado Filho, destaca que estudos têm revelado que no longo prazo, o retorno de ações socioambientais pode ser bem maior que o montadourado-150x150nte do investimento feito. De acordo com ele, no momento da decisão de compra, boa parte dos consumidores atuais tem dado preferência a produtos desenvolvidos por empresas socialmente responsáveis. “Daí a importância de se dar publicidade às ações empreendidas. E aqui convém lembrar que a publicidade deve transmitir credibilidade e ser respaldada em ações verdadeiramente consequentes”, afirma.

O fato é que até bem pouco tempo, dois critérios eram essenciais para um produto conquistar mercado: preço e qualidade. Atualmente, as transformações econômicas e sociais em curso cobram um novo critério, o da qualidade das relações da empresa produtora. “Por relações de qualidade entenda-se a promoção de relações éticas e transparentes que agreguem valor para todas as partes envolvidas: colaboradores, clientes, fornecedores, governo, sociedade etc”, explica Francilio.

Francilio explica que Responsabilidade Social não tem tamanho e pode ser implementada por qualquer empresa. Segundo ele, o desafio maior está em conceber um programa que seja coerente com as habilidades e competências disponíveis.

“Neste sentido, é fundamental um planejamento que envolva trabalhadores e gestores na definição das ações a serem empreendidas. O programa deverá atender a uma demanda específica, seja da comunidade interna (melhoria da qualidade de vida dos empregados, por exemplo) ou externa (melhoria dos índices sociais da comunidade do entorno, por exemplo), em sinergia com as atividades desenvolvidas pela empresa”, comenta o especialista.

Portanto, a empresa que pretende ser socialmente responsável, precisa manter uma relação com seus empregados que vá além do cumprimento das obrigações legais, que alimente suas perspectivas de crescimento profissional e melhoria da qualidade de vida. Francilio observa que também é necessário ser transparente quanto aos elementos presentes em seus produtos, de modo a permitir que clientes sintam-se plenamente satisfeitos em seus desejos e necessidades. O governo deve ter conhecimento de como são aplicados os recursos. É preciso trabalhar para que o meio ambiente não sofra consequências danosas de suas operações.

“O empresário precisa ainda, cobrar de seus fornecedores o mesmo comprometimento e contribuir diretamente para minimizar problemas sociais que aflijam as comunidades que habitam o seu entorno”, completa Francilio, lembrando que o custo da implementação de um programa de responsabilidade social deve ser compatível com a capacidade de investimento da empresa. “É importante destacar que a primeira responsabilidade social de uma empresa passa pela construção de sua sustentabilidade econômica. Portanto, o dimensionamento do programa não deverá comprometer o projeto de crescimento pensado”.

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